sexta-feira, junho 16, 2006

Dez anos depois

Dez anos passaram sobre o falecimento de David Mourão Ferreira.
Não vos venho falar da sua morte, mas da sua vivacidade.

  • Ternura

    Desvio dos teus ombros o lençol,
    que é feito de ternura amarrotada,
    da frescura que vem depois do sol,
    quando depois do sol não vem mais nada...

    Olho a roupa no chão: que tempestade!
    Há restos de ternura pelo meio,
    como vultos perdidos na cidade
    onde uma tempestade sobreveio...

    Começas a vestir-te, lentamente,
    e é ternura também que vou vestindo,
    para enfrentar lá fora aquela gente
    que da nossa ternura anda sorrindo...

    Mas ninguém sonha a pressa com que nós
    a despimos assim que estamos sós!

David Mourão Ferreira
Obra Poética (1948-1988)
Editorial Presença, Lisboa 1988

7 comentários:

Torquato da Luz disse...

Um dos mais belos poemas do David, de cuja amizade sinto cada vez mais a falta.

António Baeta disse...

Dez anos passaram. Nem dá para acreditar que há tanto tempo.

Darlan M Cunha disse...

Nenhuma surpresa tive ao voltar a este blogue e vê-lo cada vez mais dado a postages de excelência, como esta acerca do poeta David Mourão Ferreira, de quem eu lera "Entre a Sombra e o Corpo" (1980) e "O Corpo Iluminado" (1987).
Felicito-o também pela homenagem à pianista Maria João Pires, cuja interpretação de Chopin nivela-se, entre nós aqui no Brasil, às de Arthur Moreira Lima e Nelson Freire.

António Baeta disse...

Obrigado pela simpatia do comentário.

≈♥ Nadir ♥≈ disse...

bela homenagem.
beijos e bom domingo

fernanda s.m. disse...

Belo poema sentido de um poeta sensível. Dez anos, já ! Parabéns por ir recordando aqueles que da lei da morte se livraram...mas que os homens, hoje, vão esquecendo.
Abraço,
fsm.

fernanda s.m. disse...

"que da lei da morte se livraram " - perdão : "se vão libertando "
fsm