sexta-feira, maio 06, 2005

Um Conto (IV)

  • Ressaca

    Conhece aquela sensação de que se tem uma cabeça enorme; como na ressaca de uma noite em que se bebeu demais? - perguntou-me.
    É isso. Isso e a batida ritmada, a ressoar, ao longe. E o meu corpo a reagir, a acompanhar aquele beat, feito função vital do meu próprio ser.
    Os movimentos lentos, como se flutuasse num meio aquático.
    E uma inquietação, uma carência permanente de qualquer coisa indefinível. Por vezes, também, uma embriaguez que percorre o corpo, como um caldo morno, apaziguando os sentidos, relaxando.
    Ainda sem assumir consciência deste universo comecei a sofrer, a espaços cada vez mais insistentes, uma acção que me era exterior. Como que o efeito de um vómito no estômago. Dolorosamente a esmagar, a contorcer, a empurrar, a expelir.
    Subitamente um ligeiro alívio, interrompido por uma forte dor no peito, a rebentar, e uma luz, muito clara e violentamente intensa, no meu olhar.

    Sabe. Aquelas chapadas para recobrar os sentidos?
    Aplicaram-me uma no rabo.
    Ouvi então uma voz grave, calma, bem audível, dirigida a alguém na minha frente, que me soou a algo totalmente incompreensível.

    Contou-me minha mãe, mais tarde, que essa voz lhe teria dito:
                - «Parabéns! Tem aqui um belo e robusto rapaz».


3 comentários:

Manuel Ramos disse...

Gostei muito. Temos contista!

hfm disse...

Mais um, António, para quando o livro?
Abraço

Pecaaas disse...

Muito bem! Parabéns!!!