quinta-feira, outubro 20, 2005

Um Conto (XVI)

  • Um homem de ideias arrumadas

    O senhor Alfredo era uma figura respeitável. Na pequena cidade onde vivia, era estimado e cumprimentado com respeito e afeição pelas muitas pessoas com quem se cruzava.

    Aconteceu que, a partir de determinado momento da sua vida, começou a sentir que as pessoas passaram a comportar-se para com ele de maneira diferente da habitual. Atrever-me-ia a dizer, de duas maneiras diferentes da habitual.
    Numa delas, a mais frequente, passou a sentir-se estranha e incomodativamente observado; as pessoas olhavam-no com uma insistência e uma curiosidade exageradas.
    Na outra maneira, menos frequente, mas que sucedia de forma regular, as pessoas pareciam receá-lo; passavam por ele desviando o olhar, apressadas, ou fugiam em sentido contrário, como que amedrontadas. Por vezes ia dar com elas escondidas, ao virar da esquina, paradas, a observá-lo. Também, se subitamente parava e desviava a cabeça, para olhar para trás, lá estavam elas e os seus olhares perscrutadores.
    Nesse tal momento da sua vida, passara a impor-se-lhe, com regularidade, uma necessidade inadiável de arrumar as ideias. Quando tal acontecia não saía de casa; receava chocar com as pessoas, com os carros, com os objectos. Mas ficar em casa sem ler, sem escrever, sem ver televisão, sentado no sofá sem exercício, por horas, enquanto punha a cabeça a arrumar as ideias, era absolutamente insuportável.

    Fora a partir do dia em que assumira a sua decisão, que tudo se alterou no comportamento das pessoas para consigo.

    A partir de então, quando necessitava de arrumar as ideias, não mais punha a cabeça ao lado, sobre a mesa. Pegava nela, metia-a debaixo do braço, os olhos bem abertos para não andar aos tombos, e saía para a rua, a passear.


6 comentários:

hfm disse...

Não sei como o definir mas sei o muito que gostei e a forma como nos sabes prender até ao fim.

Mascheras disse...

absolutamente divino.
1 bj

Torquato da Luz disse...

Essa tua costela surrealista...

Gasel disse...

Mui bien :)

António Baeta disse...

Obrigado pelos comentários, meus amigos.

manuel a. domingos disse...

gostei de ler, antónio. muito kafkiano...