segunda-feira, setembro 30, 2013

Alcantarilha - memórias de infância (IX)






A Igreja Matriz de Alcantarilha remonta ao séc. XVI.

Irei usar, de novo, os serviços do Ministério da Cultura para a descrição deste monumento. São serviços habilitados para uma rigorosa e esclarecida informação. Farão certamente melhor do que eu seria capaz.

"Templo religioso construído no séc. XVI, com uma arquitetura dominada pelo estilo manuelino e barroco. O seu interior, de planta longitudinal composta por três naves de quatro tramos. A capela-mor, apresenta-se com um arco triunfal de volta perfeita em torcido e com dois níveis cobertos por uma abóbada artesoada do estilo manuelino. No altar-mor encontramos um retábulo rococó com destaque para a imagem da padroeira do séc. XVIII. De destacar o batistério, decorado com azulejos, e a sumptuosa pia batismal. Das várias alterações que o templo sofreu após o terramoto de 1755, salienta-se a construção da torre da igreja e a construção do coro. Anexa à Igreja Matriz encontra-se a Capela dos Ossos, do séc. XVI."

Este é um "link" para  o texto acima (com imagens).





 
Duas imagens batidas  a partir da rua 25 de Abril, pelas traseiras do edifício.


A torre, pós-terramoto de 1755. 
 











A Capela-Mor.



















                                                                 A Pia Batismal.












A Capela-Mor era o lugar de todas as manhãs de domingo, secundando, em coro com o Zezinho Sacristão, o responsório da missa em latim, com os frequentes améns.

Mas o momento mais apetecível seguia-se à oração do Padre Nosso (Pater Noster). Um pouco antes, o sacristão teria subido à torre para tocar os sinos na hora da consagração e teria que voltar, sob alguma pressão para cumprir com o tempo de que dispunha, sem sobressaltos, para responder ao final da oração.
 
Eu desejava sempre que ele se atrasasse para poder brilhar com o meu latim em "sed libera nos a malo". A expressão era longa e complicada e poucos a saberiam. Eu ainda a sei hoje de cor.
 
Mas não havia coisa mais entusiasmante, no que se refere ao responsório, do que o que acontecia uma só vez por ano, na missa de Sábado de Aleluia.
 
O Sr. Prior Montes mandava distribuir a cada um dos pequenos acólitos uma campainha que, no momento do Glória, imediatamente terminado o seu canto gregoriano com  "Gloria in excelsis Deo", nós fazíamos retinir com quantas forças tínhamos, até que o Sr. Prior, por vezes já com cara de poucos amigos pela delonga da nossa intervenção, repetisse o sinal de terminar com algum nervosismo.
 
Mas o melhor da Igreja Matriz era o que estava por detrás da capela-mor, a que acedíamos a partir da sacristia, particularmente por altura da Semana Santa.
 
Poder chegar à janelinha que fica por cima da imagem da Senhora da Conceição, o que era proibido, no centro do altar-mor, sobre o Sacrário, abri-la e poder ver para o lado de lá, para o sítio onde está o público, em sentido contrário ao habitual, como se se tratasse de uma revelação misteriosa, como se prevaricássemos por estar a espreitar nas costas de Deus, era o cúmulo da excitação
 
Nos largos corredores que davam a volta ao edifício, encostados às paredes, estavam abertos os baús, revelando as togas roxas, as coroas de espinhos, as lanças dos soldados romanos, as esponjas (que supostamente os legionários embebiam em vinagre e davam ao Senhor como que para apaziguar a sede, mas refinando o amargor), as escadas para fazer descer o corpo após a morte e toda uma série de outros acessórios que iríamos usar na Procissão do Enterro do Senhor, já de noite, com tochas acesas, o matraquear lúgubre das matracas, por vezes a toada pungente da música fúnebre da Filarmónica, e o silêncio... apesar da multidão em redor.
 
 
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Termino, com esta nona edição, este percurso pelas minhas memórias de infância em Alcantarilha.

Com estas memórias cobri todas as segundas e quintas-feiras do mês de Setembro.

Resta-me agradecer a todos quantos visitaram este blogue, que atingiu no seu primeiro episódio mais de duzentas visitas (quando escrevemos é para que alguém nos leia e estas minhas memórias foram lidas e sei, por testemunhos, que foram lidas e relidas).

Um abraço de saudade a Alcantarilha.


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sábado, setembro 28, 2013

A História de Silves em Medalhas - Oitavo Centenário de Nacionalidade Portuguesa



 
 
 
História de Silves - 12
Oitavo Centenário de Nacionalidade Portuguesa

Após a proclamação da República, em 1910, Silves recebe o benefício de uma Escola Industrial e Comercial, dando à cidade uma nova vida. A indústria corticeira desempenha papel económico preponderante. Com a construção da Barragem do Arade, foi possível o rápido desenvolvimento de regadios, e abertura de viação rural. Nas últimas décadas, quase todo o concelho tem prosperado, surgindo grandes urbanizações, maior aproveitamento agrícola e novas infraestruturas, pavilhões gimnodesportivos e para feiras, escolas, museu, etc.
 
 
 

quinta-feira, setembro 26, 2013

Alcantarilha - memórias de infância (VIII)





Anexa à Igreja Matriz de Alcantarilha há uma capela, que abre para o exterior, e que apresenta o seu interior completamente forrado a ossos humanos.

A Capela dos Ossos.

Além de Évora, o caso mais conhecido, há ainda capelas de tipo semelhante em Faro e Lagos.

Esta de Alcantarilha remonta ao séc. XVI.

É Imóvel de Interesse Público por Decreto nº 251/70, DG 129, de 3 de Junho de 1970.





A imagem do Senhor na Cruz é também do séc. XVI.









Pormenor de um dos suportes laterais do altar.












Num dos episódios anteriores, precisamente o quinto episódio, fiz referência expressa a este local, relembrando a designação que lhe era atribuída  (carneira)  e certa circunstância do seu uso como "depósito" dos piões a que se arrancava a segurelha.



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A Igreja da Misericórdia de Alcantarilha é também um templo do séc. XVI.

Sirvo-me da descrição do Ministério da Cultura para me referir às características deste edifício:


"Igreja construída em 1586, conforme inscrição na fachada, durante o reinado de Filipe II de Espanha (I de Portugal). Templo de arquitetura religiosa quinhentista com a nave única de dois tramos e cobertura em masseira. A capela-mor, pouco profunda e com cobertura em abóbada de berço, enquadra um retábulo barroco, em madeira policromada, dominado pela imagem da Rainha Santa Isabel. Ainda no seu interior, encontram-se alinhadas, as lanternas das procissões juntamente com as bandeiras da Irmandade. Na fachada principal, encontra-se uma porta secundária, que dá acesso às antigas dependências da Santa Casa, onde terá funcionado o hospital da Misericórdia, chamado a Casa dos Pobres."

Este é um "link" para o texto acima (com imagens).



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Não tenho memórias específicas associadas a este local, embora bem perto, à esquerda, do outro lado dessa rua que ainda se avista na fotografia, houvesse um armazém ao qual associo duas memórias distintas do seu uso.

Uma primeira está relacionada com os medos do além e do desconhecido.

Costumávamos sentar-nos, nas noites quentes de verão,  à porta do armazém,  já cheio de milho, a secar,  contando histórias.

O milho a acomodar-se, por efeito da gravidade, produzia pequenos ruídos, como que de suspiros ou respiração profunda, ou assim o imaginávamos por força de uma história que costumávamos contar, para assustar algum amigo novo que ainda não a conhecesse e se viesse juntar ao grupo.

Dizia-se que o dono do armazém, já falecido, o Sr. Inácio, continuava a aparecer à sua mulher durante a noite, no sono, e tocava-lhe. Ela responderia, dizendo:

          - " 'tá quet Naice!"

Isto traduz-se, a partir do falar algarvio, por "Está quieto, Inácio!" e deveria ser dito pelo contador com um tom cavo e profundo, que, associado aos ruídos das fatanas (regionalismo algarvio, que se refere ao invólucro do milho), inquietaria qualquer um.

Eu próprio, quando me cabia a vez de contar a história, sentia sempre um arrepiozinho frio pela coluna acima.


A segunda memória é a de uma peça de teatro que o meu pai encenou e os ensaios e representações tiveram lugar neste mesmo armazém.

Creio que na estreia, com algumas coisas ainda mal afinadas, o meu pai estaria aflito com a demora para iniciar e pediu-me que subisse ao palco com o meu irmão Zé e lhe fizesse perguntas sobre os reis e rainhas de Portugal, coisa que o meu irmão conhecia na perfeição, por via de uma coleção de cromos. Eu deveria ter os meus 7 anos e o Zé andaria pelos 4.

Abriu o pano, connosco em palco, sentados em duas cadeiras opostas, mas enviesadas para permitir aos espetadores ver-nos a expressão facial.

Perguntava eu. - " Zé, com quem casou o rei Afonso Henriques? (por exemplo) e ele lá respondia acertadamente.

Eu, também miúdo, pretendia ver se ele falhava e arrisquei em determinada altura uma que me parecia difícil, já que o rei que vou referir tinha casado várias vezes. 

          - E o rei D. Manuel? 

E ele logo todo expedito. Qual deles, o 1º ou o 2º? O primeiro, Zé, reforcei eu. Ah! Esse casou com esta, e aquela e aqueloutra e ria-se.

E não conseguia enganá-lo. Até que me ocorreu perguntar-lhe pelo Cardeal D. Henrique, pois era padre e não poderia casar, mas o Zé naquela idade ainda não entenderia isso, pois ele tinha a sua memória  estritamente associada aos lugares dos cromos nas páginas da caderneta.

Ele rebuscava a memória, contorcia-se, avermelhava e soprava, até que desistiu e exclamou, pondo a plateia em pé, a aplaudir, em gargalhadas sonoras:

               -  "Com essa é que me 'charingaste'!"

Procurei saber do significado desta palavra, que me parecia ter conotações maliciosas.

O que de mais próximo encontrei foi "seringar", que o dicionário traduz por:

1. Injetar o líquido contido numa seringa em 
2. Molhar com o líquido da seringa
3. [Figurado] Maçar, importunar

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A Igreja da Senhora do Carmo.

Também me irei servir da informação do Ministério da Cultura para a caracterização deste edifício:


"Templo que se demarca pela simplicidade da sua arquitetura. Terá existido anexado, um antigo cemitério, depois do da Igreja Matriz ter sido encerrado. O interior, na continuidade das suas linhas sóbrias, ganha vida e cor pela forma como foi decorada a capela-mor. Os motivos são simples e repetidos com elementos vegetais, criando uma dinâmica visual muito própria. No retábulo principal, destaca-se a imagem de Nossa Senhora do Carmo, com o menino nos braços, da segunda metade do séc. XVIII. Atualmente funciona como capela mortuária."

Este é um "link" para o texto acima (com imagens).

Da Senhora do Carmo não tenho memória associada, a não ser por via da sua festa anual, no segundo domingo de Setembro, e da tômbola, no largo que é hoje o do General Humberto Delgado, no topo da rua onde está a Igreja do Carmo.


(Tem continuação)

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NOTA: Se ao passardes com o rato sobre as fotos aparecer uma "mãozinha", podeis clicar com o botão esquerdo e a foto aparecerá ampliada. 
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terça-feira, setembro 24, 2013

A notícia chegou crua.




Morreu Ramos Rosa.

Imagem de: http://www.almalusitana.net/imagens/242.jpg





















               A luz veio nua
               Como um sopro ouvia-se
               O silêncio entre as abelhas
               A felicidade era um diadema no imenso
               E uma fonte que latejava sob a pele
               Os corpos eram de lama ardente à carícia da brisa
               O fogo deslumbrava-se na fundura infinita
               Como frutos sonâmbulos atravessámos as águas
               E as espirais fosforescentes da terra alvoroçada
               Adormecíamos felizes arfando no orvalho
               Sorrindo com as pálpebras
               Éramos a raiz do azul a profunda espessura
               Os campos aéreos o âmbito vastíssimo
               A pedra viva a loucura até aos astros.


in Duas Águas, Um rio, 2002



António Ramos Rosa
ALGARVE - 12 Poetas a Sul do Século XXI
Livros Capital / Linguagem de Cálculo





segunda-feira, setembro 23, 2013

Alcantarilha - memórias de infância (VII)






As recordações do curto período de tempo que vivi em Alcantarilha, entre os 3 e os 10 anos de idade, e que muito provavelmente não devem ser anteriores aos meus 6 anos, estão praticamente esgotadas.

Restam-me memórias dispersas, muitas delas relacionadas com lugares e edifícios, entre os quais figuram alguns de importância patrimonial, reconhecidos e classificados como tal.
Daí a minha ideia de prosseguir com estes relatos, debruçando-me sobre o património edificado nesta terra que tanto me marcou.

Começo precisamente pelo Castelo de Alcantarilha, cujos muros conheço desde bem miúdo, mas que nunca soube, senão já em adulto, terem pertencido a um castelo.

E inicio também com um troço de muralha, cuja fotografia bati a partir da Rua das Ambrósias, quando se desce para o Lavadouro e para a ribeira, que deveria integrar uma torre, como se pode verificar na fotografia acima, que não surge nas fotografias oficiais, creio que por não ter ser sido ainda alvo de uma classificação pelos serviços competentes do Ministério da Cultura.











É precisamente a partir da Rua das Palmeiras e por esta travessa de muros brancos, que hoje aparece identificada como Travessa do Castelo, que se acede ao troço mais conhecido da fortaleza que temos vimos a referir. Termina esta travessa no Largo General Humberto Delgado, mesmo aqui junto do edifício que se vê na fotografia à direita, e que serviu (creio que ainda serve) de Praça do Peixe.

O Sr. Costa, antigo regedor, também usava esse portão da esquerda como prisão temporária para prevaricadores da ordem pública, como me recordou o meu amigo Zezinho em recente visita que fiz a Alcantarilha.




Aqui está o Castelo (classificado como Imóvel de Interesse Público em 1977 (Dec.º nº 129, de 29/09).
Não há evidências da sua existência ao tempo da presença islâmica, mas o topónimo Alcantarilha, se é que deriva da palavra árabe Al-Qantara, que significa ponte, de que também a cidade homófona (e quase homónima) de Alcantarilla, em Espanha, se reivindica, então, pelo menos nessa época a localidade já existiria.

Quero também chamar a atenção para uma referência do Dr. Garcia Domingues, citando J. Ribera Tarragó, que se refere a um tal Abu 'l Qasim Al-Qantarí, como possuidor de uma famosa biblioteca e colecionador de obras literárias, ao tempo do Principado dos Ibn Muzain (primeira metade do séc. XI) e a residir na região de Silves (Xilb, na altura).

Al-Qantarí é um gentílico para Al-Qantara; quero significar que Al-Qantarí quer dizer alcantarilhense ou "o de Alcantarilha", ou seja, Abu 'l Qasim Al-Qantarí, aqui teria nascido ou residido, o que confirma uma certa importância desta localidade.

O que se sabe ao certo sobre o Castelo é que o rei D. Sebastião por aqui passou em visita em 1571 e ordenou que se reconstruíssem os muros ali existentes e em mau estado de conservação. Estes muros que D. Sebastião visitou seriam os que restavam de uma construção que teria sido erguida a partir de 1559, na sequência de ataques de piratas provenientes do Norte de África.

Estes muros, que envolviam a construção de uma Porta da Vila e alguns baluartes, defenderiam Alcantarilha do acesso dos que viessem do lado do mar.

Sabe-se que estas obras ainda não estavam terminadas em 1621 e no século XVIII já apresentavam ruína.

 



Dois outros pormenores do Castelo de Alcantarilha, com que termino esta primeira incursão pela memória patrimonial.


(Tem continuação)


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               Alcantarilha - memórias de infância

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sábado, setembro 21, 2013

A História de Silves em Medalhas - Câmara Municipal




 
História de Silves - 11
Câmara Municipal

Os "Homens Bons" de Silves reuniram, antes das Cortes de Santarém de 1383, na "Torre do Concelho", possivelmente a edificação, almoada, que protegia a Porta de Loulé ou da Almedina. Este dispositivo defensivo terá sido adaptado a sede da Câmara depois de D. Afonso III ter concedido foral à cidade (1266) e ostenta, sobre a porta, um escudo da 1ª dinastia. Perto encontravam-se o Pelourinho e a Cadeia. Um novo edifício inaugurado em 1891, cuja arquitetura interior oferece alusões neoárabes e onde se encontra instalada a Câmara, foi mandado construir pelo industrial Salvador Gomes Vilarinho.
 
 
 

quinta-feira, setembro 19, 2013

Alcantarilha - memórias de infância (VI)






Há uma Alcantarilha de tons campestres...






... que se avista a partir destas casas de barras amarelas....








... e destes muros caiados de branca cal.





O acesso ao campo era sempre uma aventura maior, pois teríamos que nos afastar das ruas e largos habituais, onde se exercia o controle dos mais velhos, e evitar particularmente os amigos da família.
 
Aproveitávamos sobretudo os jogos de "apanhar", ou a ideia de ir até ao lavadouro e à ribeira surgia espontaneamente na sequência desses jogos.



 






Em recente visita a Alcantarilha aproveitei para fotografar o Lavadouro e...











..deparei com este painel em azulejos que, suponho, deve reproduzir alguma foto antiga.






A ribeira é hoje quase um fiozinho de água. Provavelmente sempre assim foi, mas avistada agora com olhos de adulto tem de facto um caudal pouco significativo, em particular no verão.



Contudo, a altura da pequena ponte revela bem que o caudal de inverno não a põe em perigo.

Esta ponte está relacionada com o acesso a um local especial da minha infância, que na minha imaginação era feito de mistério e de aventura.

A Cova ou Toca do Fradinho

Trata-se de um algar ( http://www.priberam.pt/dlpo/dlpo.aspx?pal=algar ), que um grupo de malta da minha idade usava como lugar de guarda de um tesouro (uma caixa de fósforos com vidrinhos coloridos) e que, com as nossas espadas de madeira, defendíamos de um grupo oponente - "Os Invencíveis", dos irmãos Costa da Padaria.

 

Do nosso grupo lembro o Manuel Jacinto, o Zezinho, o meu irmão Zé (pequenino, mas marfado), o Toninho, o Sousa e... ( Já lá não chego mais. Alguém ajude!).

 
O lugar está agora circunscrito a uma propriedade vedada, com rede de arame, o que dificultou a fotografia, mas cujos proprietários souberam respeitar essa memória (veja-se a placa com o nome da propriedade), que não é só minha e dos amigos, mas já vinha de trás, provavelmente porque serviu de refúgio a pastores ou até a algum eremita ou frade, ou tão só pelo inusitado buraco no cimo de uma elevação rochosa.
 
 
Quando vim viver para Silves e fiz novos amigos, contei-lhes muitas vezes estas aventuras na Cova do Fradinho, ao ponto de os interessar o suficiente, para os convencer a irmos de bicicleta a visitar o lugar.
 
Pelos meus 12 anos, com o António Elias, o António José Matos, o Fernando Gama Pinto e... (já não recordo se mais alguém) lá percorremos os 15 km que separam Silves de Alcantarilha para lá chegarmos. Visitámos o lugar, prestei informações detalhadas sobre os combates, quis mostrar o tesouro, mas já lá não estava, mostrei o lugar donde formei um salto e fiquei sem respirar, provavelmente por ter caído de calcanhares, para que no final ninguém tivesse achado piada.

              - "Nada de especial!"
 
Pobre do Elias, que teve que fazer um esforço duplicado, pois tinha uma bicicleta de roda baixa.
 
E pobres de nós se os nossos pais tivessem desconfiado da aventura.

Felizmente fomos coesos e ninguém se descoseu.

(Tem continuação)


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segunda-feira, setembro 16, 2013

Alcantarilha - memórias de infância (V)






O Adro da Igreja era o lugar de todos os acontecimentos.

Durante a Feira anual, a 15 de novembro, era o sítio de implantação do carrossel; até lá esteve o famoso carrossel 8, que não andava às voltas fechadas, mas aos oitos, pois funcionava em dois níveis, um mais elevado do que o outro e às curvas, como um 8.
 
 
 
Aqui está o carrossel 8,
em fotografia só para ilustrar a ideia,
batida na Feira de Silves de 2006.
(ao clicar amplia a foto)
 
 
 
 
 
Também era o lugar de projeção de cinema, nessa parede branca, à direita, na fotografia  de cima.
 
Recordo-me de um homem que instalava pelo final da tarde a máquina de projeção e, à noite, cada um com sua cadeirinha de tabua, ou banquinho de madeira com buraquinho no tampo para meter o dedo e transportar, lá nos sentávamos para ver o cinema ambulante.
 
Recordo particularmente um filme, a preto e branco, talvez até em sépia, (ainda não havia cor nessa época), onde havia dois irmãos gémeos, um deles encerrado numa sala por esquizofrenia (penso eu, hoje), mas cuja porta de acesso se abria se o outro irmão, ao tocar piano, premisse a última tecla branca à esquerda do teclado. Já não recordo o que faria o irmão esquizofrénico se a porta se abrisse, mas o filme criava um clima de tensão enorme, pois enquanto o pianista gémeo tocava uma música, provavelmente em tom menor, pois é um tom que gera uma impressão de tipo angustiante, os dedos percorriam o teclado e aproximavam-se da última tecla, mas sem lhe tocar, e o meu coração batia acelerado de cada vez que os dedos se aproximavam da tecla que abriria o acesso ao gémeo louco e assassino, creio eu.
 
Mas o adro era também o lugar do berlinde e do pião, em devida época, e pião que perdesse o jogo era mutilado, partindo-se-lhe a "segrelha" (creio que o que queríamos dizer era segurelha) e atirado pelos buracos da porta mal conservada para dentro da "carneira", como chamávamos à Capela dos Ossos, ao fundo, à esquerda, na foto de cima.
 
O adro era também o local onde morava, e ainda mora, o meu amigo Zezinho. Ao fundo, à direita, ficava  a porta das traseiras, com acesso ao quintal, por onde entrávamos.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Mas este largo agora, nesta fotografia, onde antes estava o prédio do Professor Verdasca, que hoje parece menos largo do que era, também cumpria um papel semelhante ao do adro da igreja e também para aqui vinha a aldeia em peso, com as tais cadeirinhas de tabua e os banquinhos de madeira com buraco no topo, não para ver cinema, pois não havia parede branca, mas para apreciar os grupos ambulantes de saltimbancos, com artes acrobáticas e ilusionismo e habilidades de animais. Lembro-me particularmente de uma cabra que se equilibrava no gargalo de uma dessas garrafas de litro, em vidro.
 
E às sextas ao cair da noite, onde tínhamos uma liberdade maior para sair, pois não havia responsabilidades com a escola ao sábado, a maior fixação era o matadouro do Sr. Pedrosa, nesta foto com essa porta e essa janela (a porta, no tempo que relato, era velha e em madeira), hoje em dia mesmo ao lado do restaurante Mariazinha.
 
 
 
Aí o jogo consistia em agarrar a ovelha, o carneiro ou a cabra que o homem responsável pelo matadouro indicasse e levar o animal para junto dele.
 
Depois era a emoção  desencadeada pela surpresa e pelo mistério da morte: o animal preso entre as pernas do homem, a choupa, pequena faca recurvada, em bico, muito afiada, que ele encostava a um ponto preciso que tateava previamente com os dedos, e... num só gesto de pressão, no "nó vital", como lhe chamávamos, o animal tombava, inerte.
 
 
P.S.
O meu irmão Zé esteve a ler este episódio de memórias e diz-me que talvez não fosse o carrossel 8, mas sim o carrossel Flecha, pois o carrossel 8 dificilmente caberia no Adro. Admito o erro de memória, embora para mim o carrossel Flecha seja  o normal, o sempre presente, e não o especial, como seria o 8.  Fica a sugestão, mas quase o vejo a rodar nesse lugar quando fecho os olhos. Alguém se lembra, por aí?!

Também me emenda o episódio do matadouro, dizendo que a circunstância de poder ficar até mais tarde, porque no outro dia não havia escola, não tem razão de ser, pois havia escola ao sábado. E recorda que uma vez, ao final da tarde, a Sra. Joaquina nos foi chamar ao matadouro, embora sem êxito, e depois ter aparecido o meu pai, com mais êxito. :)
Concordo que assim tenha sido.


(Tem continuação)


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sábado, setembro 14, 2013

A História de Silves em Medalhas - João de Deus


 
 
 
História de Silves - 10
João de Deus

Poeta lírico, nasceu em São Bartolomeu de Messines, em 1830.
O seu primeiro livro de poesias, "Flores do Campo", foi editado em 1868. Um ano depois era eleito deputado por Silves. A sua Cartilha Maternal, de 1876, foi declarada Método Nacional de Leitura em 1888. Teófilo Braga reuniu as suas poesias em "Campo de Flores" (1893).
Foi objeto de expressiva homenagem nacional em 1895. No ano seguinte falecia em Lisboa e foi sepultado no Mosteiro dos Jerónimos.
 
 
 

quinta-feira, setembro 12, 2013

Alcantarilha - memórias de infância (IV)





As minhas memórias mais remotas são as da casa onde morávamos e onde nasceram os meus dois irmãos mais novos: o Zé e o Fernando. É a casa de paredes brancas, sobre a esquerda, com uma porta e duas janelas simétricas - a estação local dos Correios, que a minha mãe chefiava.
 
A porta servia o correio propriamente dito e a minha casa, no interior. Para sair para a rua teria que passar junto ao balcão e se quisesse sair sem autorização teria que ser discreto e sorrateiro.
 
Felizmente havia um quintal, bem amplo, com um poço que a minha mãe temia, por nossa segurança, apesar de ter uma cobertura, e uma zona cercada a muro onde meu pai cultivava quase tudo o que era necessário em casa, das couves às batatas, das cenouras às alfaces...
 
Havia também um jardim, encostado ao muro, onde havia flores, muitas flores. Lembro os amores perfeitos, em quantidade tal que dava para encher por completo o andor do Senhor dos Passos.
 
Uma outra zona era reservada aos coelhos e galinhas.
 
O poço e uma outra área tipo logradouro sem ocupação específica, ficavam precisamente nas traseiras dessa casa amarela com uma porta e duas janelas.

Essa porta não sei se está ou não classificada, mas deveria estar; trata-se de uma cantaria manuelina (séc. XVI).
 
A porta intermédia entre o correio e essa casa era a barbearia do António da Horta, que aos sábados à noite ficava aberta até desoras, pois vinham os homens cortar o cabelo e aparar a barba, porque no dia seguinte era domingo e dia de vestir o melhor fatinho para sair a passear ou ir à missa.
 
Mas o quintal tinha uma outra porta para a rua de trás. Essa porta velhinha da foto abaixo.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


E essa porta dava para esta rua - a Rua da Audiência.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

E aí, além da garagem onde o meu pai guardava um velho Ford, de Matrícula AC, salvo erro AC-77-70, bem velhinho mesmo para a época, do tipo daqueles automóveis dos filmes do Al Capone, com os "gangsters" no pequeno poial de acesso ao interior, armados até aos dentes e a disparar freneticamente para todo o lado. Lembram? Pois ainda viajámos nele até à terra do meu pai, lá para os lados do baixo Tâmega, bem perto do local onde desagua no grande rio Douro, o do Vinho do Porto.
 
E ainda existe essa garagem.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

E também existe, já com um ar desabitado, a casa onde morava uma senhora que um dia teve a má ideia de sugerir ao meu Zé que compusesse melhor a blusinha, que tanto trabalho deveria ter dado à mãe para a lavar e passar e ferro.
 
Pois essa senhora, de cada vez que assomasse à janela teria que ouvir o meu Zé, 3 anos mais novo do que eu, dizer com aquela vozinha de moço a arremedar - "Puxa a blusinha, puxa!" - até à exaustão.
 
Um dia,  a queixa da senhora foi cair aos ouvidos do meu pai!!!
(Eu agora estou a rir e o meu irmão quando for ler isto também rirá, mas na ocasião não se riu, não).
 
 
 
Espraiei-me nestas memórias, que terei de continuar em próximo episódio, pois este já vai um pouco longo.
 
Até breve!
 

(Tem continuação)


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