quinta-feira, dezembro 04, 2003

Para compreender o Islão

Para compreender o Islão, é o título de um post, a cuja entrada tive acesso no blog História e Ciência, a que o link atrás permite aceder, mencionando uma edição especial da revista História, com o mesmo título e para a qual chamo a vossa particular atenção.

Esta minha insistência em temas do Islão tem a ver directamente com a minha naturalidade e com a curiosidade daí resultante em comprender a civilização do Al-Ândalus que precedeu, nesta minha terra, a chegada dos cristãos do Norte.
Acontece ainda que o fulgor daquela civilização me enche de orgulho e que por ela sinto uma atracção e uma sedução que deriva da descoberta de muitas afinidades com a minha maneira de ser e estar, que se reflecte até na cor da pele, e um forte sentimento de identificação.
O que me interessa de facto é a civilização do Al-Ândalus enquanto civilização mediterrânica ao Sul de Portugal, mas para a compreender melhor tive que percorrer alguns dos caminhos que ela própria percorreu para aqui chegar. Aí, no entanto, o interesse é meramente circunstancial, se bem que essa circunstância, hoje, seja uma preocupação comum a todos os que tencionam compreender o mundo em que vivemos e o fenómeno que já começa a designar-se por embate civilizacional.

Esta explicação prolongada servirá, eventualmente, aos que frequentemente me interrogam sobre esta minha insistência em temas árabes.

Na citada revista, Cláudio Torres, aquele que mais tem trabalhado para resgatar o passado islâmico de Portugal, como afirma Luís Leiria no editorial, concede uma longa entrevista, de elevado interesse para a compreensão desta civilização, a última grande civilização do Mediterrâneo.

Acicatando a vossa atenção refiro algumas temáticas a contra-corrente, ou menos usuais:

    - A civilização islâmica não veio do deserto... Ela é a soma, a continuidade das velhas e milenares civilizações que convergem lentamente ao longo dos séculos para o apogeu civilizacional dos séculos X-XI., ... em Alexandria, no Cairo, em Antióquia.

    - Os impérios continentais, de ocupação territorial, portanto militar e os impérios marítimos, assentes no comércio: "O comerciante que vai vender a um país que não conhece, a um porto diferente, tem de contactar o comprador, não matá-lo".

    - A sociedade feudal, da Europa do Norte, e a sociedade tributária, da Europa do Sul: "...sociedade feudal solidamente organizada e hierarquizada pela Ordem de Cluny, em que o dinheiro e o comércio são pecaminosos, e uma outra sociedade a que chamamos hoje tributária, onde o mercado faz parte da sua própria fundação ideológica."

    - "A estrutura económica do feudalismo, a sua própria sobrevivência, assentava na guerra contra o Sul mais urbanizado e enriquecido com produtos oriundos do comércio longínquo".

    - "A cidade mediterrânica era uma pequena cidade, um núcleo urbano equilibrado ... com a sua cintura alimentar, as suas hortas, as suas árvores de fruta, as zonas de sequeiro, as de pastoreio. É uma espécie de célula de sobrevivência. Este núcleo de civilização não encontramos no Norte feudal. O Mediterrâneo manteve-se agarrado a esta civilização que foi a cidade, que praticamente só implodiu agora no século XX, com a concentração brutal dos expulsos da agricultura".

    - "As grandes pulsões da história do homem são feitas pela miséria e pela necessidade" ... "Em que medida é que essa falta de necessidades, a ausência de uma miséria absoluta e a sólida estabilidade, a capacidade de ir mantendo a civilização a nível médio não impediu uma mudança radical, arrastando-se até à decadência moderna?"

    - "Um Islão que era um imenso mosaico de povos, de culturas, de formas de ser, mesmo de micro-religiões, está a ser empurrado pelo autismo desta nossa civilização todo-poderosa para uma agressiva resistência, como única forma de manter alguma identidade".


Espero ter despertado alguma vontade de vir a ler esta interessante entrevista, se é que não os macei e produzi o efeito contrário, e provoque algum desejo de melhor conhecer o outro, o do outro lado deste grande mar interior onde fermentaram todas estas civilizações ditas ocidentais, que nos fizeram tal como somos hoje.

4 comentários:

Sara Xavier disse...

E se despertou a vontade... não só de ler a entrevista mas de aprofundar mais toda essa temática.
Um abraço

susana gama disse...

Boa noite professor,
Ontem à noite encontrei este site, um pouco radical mas muito interessante.http://www.angelfire.com/darkside/franco/Cat.html
Cumprimentos

António Baeta disse...

Susana
Não apreciei.
Recomendo Legado Andalusí.
Um abraço.

Luisa Anselmo disse...

«E esta?» Atrasei-me, adormeci e sonhei. Sabe com quê? Com a «Execução burocratica da luz» do pato Donald, agente do FBI. Imagine! Ah, havia megatoneladas de cimento armado, névoas densas, antiquissimas, no sopé das montanhas cujos cumes eram impossiveis de alcançar, por enquanto.
Regale-se, com um bom fim de semana, sim?