terça-feira, março 16, 2004

A Al-Mu'tadid

É tempo de um novo poema de origem luso-árabe. Hoje é a vez do mais brilhante poeta silvense, Ibn 'Ammar e, a meu ver, do seu mais belo poema:


  • mais uma rodada, copeiro,
    que já se ergue a aragem da manhã
    e a estrela de alva
    desviou a rota da noite viajeira.
    A alvorada trouxe-nos brancura de cânfora
    assim que a noite reclamou seu negro âmbar.
    o jardim parece uma donzela vestida com túnica
    bordada a flores e adornada com pedras de orvalho
    ou então, jovem ruborizado de pudor de rosas
    alentado com a sombra do mirto.
    e esse jardim,
    onde o rio lembra branca mão
    pousada sobre um tecido verde,
    mostra-se agitado pela brisa:
    dir-se-ia, meu Rei,
    a tua espada desbaratando exércitos.
    meu senhor!
    verde brilhante são os favores da tua mão
    quando os céus se turvam de cinzento.
    teu dom é sempre generoso:
    se virgens dás têm seios opulentos
    se cavalos são de nobre raça
    se alfanges têm pedras preciosas.
    meu Rei!
    quando os demais reis se dessedentam
    esperam que ergas primeiro a tua taça.
    és mais refrescante para os corações
    que o orvalho formado gota a gota
    e mais agradável para os olhos
    que o doce peso do sono.
    faz faiscar a chispa da tua glória
    que não deixa nunca o fragor da lide
    senão para se abeirar do lume
    que mandaste acender para os teus hóspedes.
    Rei,
    esplêndido no talhe e no espírito,
    como o jardim, belo de perto ou à distância.
    quando a teu lado me é dado
    o rio celestial que mana do teu ser
    é bem certo que estou no Paraíso.
    fizeste pender da tua lança
    as cabeças dos reis teus inimigos
    só porque o ramo agrada
    na impaciência da flor?
    tingiste a tua cota com sangue de heróis
    só porque a formosa se enfeita de vermelho?
    a espada, se a tua mão a empunha,
    dá lugar a súplicas mais eloquentes
    que as do melhor dos tribunos, quando fala.
    este poema é para ti.
    como um jardim que a brisa visitou
    e no qual repousou o orvalho da noite
    até que o ataviou de flores.
    do teu nome fiz uma veste de ouro.
    em teu louvor derramei o melhor almíscar.
    quem me suplantará? se o teu amparo é sândalo
    eu o queimei no fogo do meu génio,
    estavam as brasas ainda a arder.


ALVES, Adalberto
O meu coração é árabe
Assírio & Alvim, Lisboa, 1998

2 comentários:

eduardo disse...

Bom dia, António.
Poema singular, este.

Sara Xavier disse...

António, espero nunca deixar passar em claro poemas deste calibre. Obrigada por os colocares aqui. Abraços