quinta-feira, abril 21, 2005

II Bienal de Poesia (III)

Tem início amanhã (22) a II Bienal de Poesia.
Pelas 21h30, na Igreja da Misericórdia, "Escreve que eu notarei", uma Perfomance/Teatro, pelo Teatro da Estrada.

Marque encontro com António Ramos Rosa, Herberto Helder, Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner.

  • Pastelaria

    Afinal o que importa não é a literatura
    nem a crítica de arte nem a câmara escura

    Afinal o que importa não é bem o negócio
    nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

    Afinal o que importa não é ser novo e galante
    - ele há tanta maneira de compor uma estante!

    Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
    e cair verticalmente no vício

    Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola
    antes de haver cinema madame blanche e parola

    Que afinal o que importa não é haver gente com fome
    porque assim como assim ainda há muita gente que come

    Que afinal o que importa é não ter medo
    de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
    Gerente! Este leite está azedo!

    Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
    à saída da pastelaria, e lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo

    No riso admirável de quem sabe e gosta
    ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Mário Cesariny
Quinze Poetas Portugueses do Século XX
Selecção de Gastão Cruz
Assírio & Alvim, Lisboa 2004


4 comentários:

mb disse...

Vamos lá ver se dizem a Evocação de Silves de quem foi seu califa. Se eu tivesse nascido em Silves, que motivo de orgulho me seria darem o seu nome à Bienal.

António Baeta disse...

mb
A Bienal deste ano homenageia António Ramos Rosa.
Al-Mu'tamid já tem uma praça, de tons mediterrânicos, em seu nome, para além de outras coisas. Não pode nem deve tornar-se uma moda. Bom seria que fosse lido, declamado e comentado nas escolas, mas os programas continuam alheios à realidade local e os professores não o conhecem nem o estudam na Universidade.

JG disse...

Repare, António, que nenhum desses poetas é de Silves. Pergunto, por exemplo, onde está Torquato da Luz, natural do concelho. Um abraço.

António Baeta disse...

Caro JG
Não sou da organização. Não tenho responsabilidade nas opções da Bienal, mas creio que quando diz "nenhum desses poetas" se está a referir aos que o Teatro da Estrada escolheu para sua Perfomance/Teatro da noite de 22.
Se se refere aos oradores das Mesas Redondas, remeto-o para o post que publicarei na terça-feira.