terça-feira, julho 13, 2004

Gama e Ibn Madjid

Apeteceu-me rever um programa de computador, mais exactamente um jogo didáctico sobre Vasco da Gama e a Descoberta do Caminho Marítimo para a Índia, que eu tinha programado, com o apoio do meu amigo Manuel Ramos, para a Federação Portuguesa de Filatelia, por ocasião de uma grande mostra internacional no Centro Cultural de Belém, conhecida por Portugal 98. A relação com a filatelia tinha a ver com a utilização de selos e outro material filatélico para contar a história que suportava o jogo.



Dizia então que revia esse programa de computador, quando se me deparou este texto, que havia sido escolhido para descrever o encontro de Vasco da Gama com Ibn Madjid (o conhecedor e experimentado piloto árabe que o rei de Melinde facultara a Vasco da Gama para a travessia do Índico), e que reproduzo a seguir:


  • " Quando o capitão português e o piloto árabe, naquele dia, se comunicam os seus conhecimentos, o mundo geográfico e o espírito humano alargam-se de súbito. Alargam-se para sempre. Em frente das cartas de marear de cada um, Ibn Madjid e o Gama entreolham-se e medem, inebriados pela alegria inefável que dá o conhecimento, as novas dimensões da Terra e do Homem. (...) Até então havia apenas homens, povos, religiões diferentes. Mas naquele dia nasce a Humanidade, que hoje está no quinto século da sua breve infância. Daqui por diante a verdadeira história dos povos desenvolve-se como um corolário desse encontro. "
    Jaime Cortesão, História dos Descobrimentos Portugueses, Vol. II, Parte IV, Cap. IX, 2ª edição / Círculo dos Leitores


Entristece-me recordar como há seis anos atrás achava que a Humanidade, nesta perspectiva de Jaime Cortesão, estaria a atingir a adolescência. É que hoje, passados seis anos, acho que estamos num processo de regressão.
Quem me dera que estivesse enganado!


4 comentários:

Sara Xavier disse...

Perdi o aniversário deste imperdível blog mas ainda vou a tempo de esperar pelo próximo!

Parabéns. Um abraço

Manuel Ramos disse...

Caro António,
Jaime Cortesão falava em "breve infância"; tu, optimista, é que nos deslocaste para a adolescência! Que é talvez o período evolutivo em que nos encontramos agora, conhecidos que são os problemas de identidade, desadequação, rebeldia e violência tão particulares a essa fase da vida do "Homo Sapiens Sapiens" tão semelhantes aos problemas que defrontamos enquanto espécie.
Ai, se algum dos meus profs. de História da faculdade me ouvisse dizer isto!!

francisco ricardo disse...

Jaime Cortesão, neste e noutros textos, sobrepôe a sua visão humanista à "certidão da verdade". A marca humanista tem raízes mais fundas que as lançadas no encontro de Gama e Ibn Madjid. Empolar esse momento fraternal de sábios não pode apagar Homero.....Platão.... Socrates... Cícero...Dante....Camões.... Regredimos? A História não se faz em linha recta, antes avança e recua, progride e regride...Os períodos de regressão são os dos fundamentalismos, tanto políticos como religiosos.O fundamentalismo é a regressão do humanismo. fcr.

António Baeta disse...

Homero, Platão, Sócrates já são património comum das duas civilizações que se encontram com Gama e Madjid; não esqueçamos que foram os árabes que os traduziram durante os fundamentalismos da nossa Idade Média. De Cícero somos herdeiros naturais. Dante e Camões são-lhe posteriores. Agora se, como afirma, fundamentalismo é regressão do humanismo, nós estamos mesmo em regressão, porque a História não se faz em linha recta.
Um abraço, Francisco.