terça-feira, maio 25, 2004

De Sara para Sara, por uma noite

Dedico à Sara, que se atreveu a abandonar a sua rota de cabotagem e mergulhar na noite, desnoiteando:

  • De Ibn Sara, de Santarém (? - 1123)

    ah, a noite que eu sem fim passei!...
    o tempo alargava a sua duração
    e dava-lhe o cerne do que na vida amei.
    comentaram alguns, pela noite fora,
    como se ia escoando a sua mansidão.
    mas a noite apenas consentia a aurora...

    das nuvens tão denso era o breu
    que já não se sabia o que era terra ou céu.
    ao longe o raio entre trevas se escondia:
    era um negro que entre lágrimas sorria.

    brandi alto o sabre da minha vontade
    e tingi o manto dessa mesma aurora
    ao ferir o colo da escuridade
    com o sangue da noite pela noite fora.

Adalberto Alves
O meu coração é árabe
Assírio & Alvim, Lisboa 1998


P.S. Ibn Sara já constava da minha galeria de poetas, na coluna da direita, em Ibn Sara, de Santarém, com A Brisa e a Chuva.


4 comentários:

Sara Xavier disse...

O que te dizer, amigo? Agradecer-te o post e o poema de Ibn Sara. Sobre este último retiro a "sagesse" e a beleza das palavras/imagens. Escolher um verso? Impossível; todo ele é o espelho da profundidade da noite.

Um abraço

mb disse...

Desde há bastantes anos, quando descobri "O Meu Coração é Arabe" e mais tarde "Al-Mu'thamid" que admiro a poesia do Al-Andaluz, do território português ou não, poesia que os schoolars deveriam considerar como nossa antepassada e não apenas a dos Cancioneiros.

boneco inanimado disse...

o problema é que esta poesia não é na nossa língua.

António Baeta disse...

Não entendo qual é o problema que você vê nisso?!