segunda-feira, setembro 04, 2006

O Dia da Cidade

Avenida junto ao rio, Silves, 3 de Setembro de 2006, © António Baeta Oliveira
(Foto captada com a câmara do telemóvel, no entardecer do Dia da Cidade, e que intitulei Beirute/Silves)

Na ausência de qualquer informação sobre iniciativas do executivo camarário para o Dia da Cidade, elegi esta foto dos escombros da Avenida sobre o rio, paradigma da actuação desta administração, que dá início a obras cujo fim e finalidade não consegue controlar, num atoleiro que envolve toda a cidade, que aqui descrevi no meu penúltimo post e que o Saco dos Desabafos complementa pormenorizadamente.

As Comemorações do Dia da Cidade, na óptica desta administração camarária, constituem uma jornada em que não participo, e em que não participarei, enquanto o Dia da Cidade for evocado nesta perspectiva redutora e negativista, de "Conquista da Cidade aos Mouros", que pressupõe a inexistência da cidade, dos seus cidadãos e da sua cultura nos séculos que precederam a administração portuguesa. É como um voltar as costas a todas as civilizações que nos antecederam, de Cilpes a شلب (Xilb), e que nos fizeram como somos hoje. É esquecer os intelectuais, os artífices, os cientistas e os poetas, cujos testemunhos permanecem entre nós e que viveram Silves, esta mesma cidade, tanto ou mais intensamente do que vivemos hoje. Os seus inumeráveis vocábulos fixaram a nossa língua, o seu saber e forma de viver integraram os costumes que hoje identificamos no artesanato, no labor agrícola e no controlo da água, esse preciosíssimo bem.

Porquê a primazia destas comemorações no confronto com os mouros, como se os mouros não fôssemos nós, os que nascemos e vivemos neste território, subjugados ao peso da administração islâmica e depois da portuguesa?

Porquê não comemorar o encontro destas culturas, tão patente, afinal, nos monumentos que ainda hoje melhor nos identificam - o Castelo, islâmico, e a Sé Catedral, portuguesa e cristã?!

8 comentários:

Torquato da Luz disse...

O meu aplauso, Toy. Ao que me tenho apercebido, dificilmente se conceberia administração municipal mais inepta do que esta a que a nossa cidade tem estado sujeita desde há uma dezena de anos.
Um abraço.

RS disse...

Cuidado com as lembranças, amigo Baeta, não vá algum cristão iluminado decidir o "restauro" desses monumentos "livrando-os" das influências mouriscas e "devoldendo-lhes" a "pureza" da traça...

Um abraço,
RS

hfm disse...

Bela reflexão sobre este tão desumano olhar sobre o nosso património.
Um abraço

bettips disse...

O contraponto da beleza é este marasmo cívico e sem gosto. Eu não sei quem são ...mas aposto que diriam que o "dia da cidade é quando um homem quiser". E eles não querem nada de arejado ...
Por cá, também temos disso, fachadas para enteter o ego (deles)! Abç

Paulo Sempre disse...

Há imagens que valem 1000 palavras. Nem vale a pena comentar...Portugal século XXI.

António Baeta disse...

A todos, o meu obrigado pelos comentários.

Anónimo disse...

Perfeitamente de acordo.

João Norte

intro.vertido.weblog.com.pt

António Baeta disse...

Obrigado, João Norte.