quarta-feira, setembro 15, 2004

Ainda o prólogo de "El Collar de la Paloma"

  • "(...) A Idade Média europeia é, na sua realidade, inseparável da civilização islâmica, já que consiste precisamente na convivência, à sua vez positiva e negativa, de cristianismo e islamismo sobre uma área comum impregnada pela cultura greco-romana. (...) A própria religião islâmica procede da cristã, mas esta procedência nunca teria tido lugar se os povos europeus e os povos árabes não tivessem penetrado na área ocupada durante séculos pelo Império Romano. Os germanos e os árabes eram povos periféricos, alojados nas margens daquele império e a história da Idade Média é a história do que se passa com esses povos à medida que vão penetrando no mundo imperial romano, instalando-se nele e absorvendo porções da sua cultura rígida e já necrosificada. A Idade Média, de certa maneira, é o processo de uma gigantesca recepção, a da cultura antiga por povos de cultura primitiva. E a génese cristã do islamismo não é senão um caso particular dessa recepção, produzida pelo mesmo mecanismo histórico que levou os árabes do séc. IX a acolher Aristóteles, Hipócrates, Galeno, Euclides, Diofanto e Ptolomeu. Esquece-se demasiado que os árabes, antes de Maomé, viveram sete séculos rodeados por todos os lados de povos que estavam mais ou menos helenizados e que tinham vivido sob administração romana. Não é só da Síria que sopra sobre os árabes o grande vento da Antiguidade, mas também da Pérsia, da Bactriana e da Índia. Por sua vez a Europa, pelo seu lado norte, manteve-se livre das influências greco-romanas e pôde conservar por mais tempo intactas as raízes do seu primitivismo.
    (...) A minha ideia é a de que, ao começar a chamada Idade Média, germanismo e arabismo são dois corpos históricos homogéneos no que concerne à situação básica da sua vida, e que só depois, a pouco e pouco, se vão diferenciando, até chegar nestes últimos séculos, a uma radical heterogeneidade.
    A opinião contrária, que é a usual, surgiu por geração espontânea, irreflexivamente - coisa tão frequente nos historiadores - porque projectaram sobre aqueles primeiros séculos medievais a imagem de extrema heterogeneidade que hoje nos oferecem os dois grupos de povos. (...)
    "



10 comentários:

Sara Xavier disse...

Encantada com estas leituras!

Um abraço

Manuel Ramos disse...

Ortega y Gasset deveria ficar calado quando se refere à História. Embora este texto seja menos polémico, não posso concordar que alguém como ele possa fazer tal juízo de valor sobre os historiadores!

Manuel Ramos disse...

Foram ou não os seus colegas de ciência, os filósofos da igreja medieval (S.Tomás, Bernardo...) que em nome da Santa Religião persistentemente alimentaram essa diferença que gerou as Cruzadas, a Inquisição e os preconceitos em que ainda hoje vivemos???!!! E que dizer da frase "(...) dois corpos históricos homógeneos (???) no que concerne à situação básica da sua vida (...)",

Manuel Ramos disse...

logo após ter afirmado que a Europa do Norte, ao contrários dos povos árabes, se tinha mantido livre do helenismo.

António Baeta disse...

Entre a primeira e a segunda afirmação há um hiato na minha transcrição, marcado com (...). Aí Gasset comenta: "os estádios dessa recepção são, no seu começo, muito semelhantes. (...)

António Baeta disse...

(...) A única diferença inicial - que é importante, sem dúvida - radica em que os árabes receberam a Antiguidade sob o aspecto do Império Romano do Oriente e os europeus na sua forma de Império Romano do Ocidente, (...)

António Baeta disse...

(...) o que acarreta que os árabes puderam aceder bem cedo ao seu Aristóteles e, por seu turno, o cristianismo suscitador do Islão fosse o nestoriano e o dos monofisitas, dois perfis arcaicos da fé cristã."

António Baeta disse...

E isto é o que posso fazer por Ortega y Gasset. Não posso assumir a sua defesa.
Mas creio que ontem ficaste demasiado susceptível quanto aos nacionalismos dos "nuestros hermanos" e sinto o mesmo hoje quanto aos historiadores.
Falaremos disso entre nós. Vale?!

Marco disse...

Tanto quanto me lembro de coisas que li por aí, Aristóteles foi traduzido do árabe para voltar a ser lido nos mosteiros da Europa. O próprio S. Tomás teria tido acesso a essas traduções.
Corrijam-se se estiver enganado.

António Baeta disse...

Correcto, sim. O próprio texto onde colocaste este comentário o afirma.