quinta-feira, setembro 09, 2004

Gosta de códigos? (I)

Como se exprime quem tem pouco vocabulário? Naturalmente que em discurso directo: eu disse, ele disse, o outro disse, reproduzindo um diálogo.
O discurso directo é, literariamente, um recurso simplista, se bem que passível de gerar uma escrita viva, espontânea, dinâmica, emocional e afectivamente atraente.
O discurso directo está na base da escrita dramática, como a do autor de teatro. O que está para além do que dizem os actores, intui-se a partir das suas interpretações, da cenografia, de toda a envolvência e códigos de comunicação de que se serviu o encenador.
No cinema é também o discurso directo do argumentista que serve a linguagem dos actores e é a base de trabalho dos técnicos de estúdio, dos da iluminação, dos da câmara, de toda a panóplia de recursos e códigos de comunicação de que se serve o realizador.
A literatura, só por si, não pode recorrer aos actores, nem aos encenadores, cenógrafos, realizadores... tem um código próprio e é um trabalho de autor.

Exige menos esforço ver televisão ou cinema do que teatro, que já não tem a mediação da câmara a facultar um outro olhar que não o nosso, ou do que a literatura, onde o envolvimento é criado por descrições mais ou menos longas, enriquecidas por recursos estilísticos ou de vocabulário, a exigir um percurso anterior, uma aprendizagem, uma certa regularidade, até mesmo, talvez, hábitos de escrita.

O cinema e a televisão trouxeram ao grande público a capacidade de captar os ritmos, os movimentos, as sugestões, quase como na vida real, gerando reminiscências que permitem vivenciar com maior facilidade a literatura do discurso directo.
A literatura do discurso directo é a base da escrita cinematográfica.

A escrita cinematográfica é de leitura fácil, poderia ser barata e dá milhões.

      (Continua em breve, neste blog perto de si)


3 comentários:

helder disse...

António: bom texto. De vez em quando precisamos repensar, não? Venha de lá essa 2ª parte!
Um abraço do Helder Raimundo.

António Baeta disse...

Helder
Quis hoje deixar um comentário no teu blog a propósito dos saberes e responsabilidades dos nossos políticos, que dispensam os investigadores, numa atitude ridícula de omnisciência, que nos prejudica todos os dias.
Não o pude fazer.
Fi-lo agora no meu.
Um abraço.

francisco ricardo disse...

Concordo. Uma ressalva: Parece-me que , hoje, esse discurso directo puro e duro está a ceder algum lugar ao discurso indirecto livre, ao monólogo interior, à abolição do "ele disse:" e do travessão. Se não fosse julgado superimodéstia, gostaria de lhe oferecer uma obra minha , para o que precisaria o seu assentimento e a sua direcção, via CTT. Um abraço. fcr