terça-feira, setembro 14, 2004

"El Collar de la Paloma"

É o título do livro que me ocupa de momento (ainda não vertido para a língua portuguesa). Um tratado sobre o amor e os amantes. Esta obra é considerada como a melhor do seu autor - إبن حزم - Ibn Hazm (sécs. X-XI) - e de toda a literatura árabe do al-Andalus.

Quero compartilhar convosco algumas considerações produzidas por José Ortega y Gasset no prólogo desta versão espanhola de Emilio García Gómez, sobre a questão das nacionalidades e da herança cultural que nos foi legada:

  • "(...) É claro que ao chamar árabe "espanhol" a Ibn Hazm, atribuo-lhe a sério o arabismo e com informalidade a hispanidade.
    Sem que pretenda estorvar que cada um proceda como lhe apraz, não estou disposto, por minha parte, a aventurar-me a chamar a sério "espanhol" a quem quer que nasça em território peninsular, mesmo que de sangue "indígena" e ainda que aqui tenha vivido toda a sua vida.
    A territorialidade e o plasma sanguíneo são os últimos atributos que podem qualificar a nacionalidade de um homem, isto é, a substância histórica de que é feito, e só têm eficácia quando antes se reúnam nele todos os outros. A prova simples e notória reside em que, vice-versa, se pode ser espanhol até ao grau mais superlativo sem que nunca se tenha visto terra espanhola e, igualmente, pode ser-se espanhol tendo muito pouco ou nenhum sangue da nossa casta. E isto, que é verdade agora, quando a Espanha há muito tempo atingiu a plenitude da sua nacionalidade, era-o muito mais nos séculos X e XI, quando a "coisa" a que chamamos Espanha começava simplesmente a germinar.
    Todos estes qualificativos "nacionais" significam, com maior exactidão, a pertença substantiva a uma determinada sociedade, e a sociedade árabe do al-Andalus era distinta e diversa da sociedade ou sociedades não-árabes que nesse tempo habitavam Espanha.

    Mas isto não impede que a nossa relação com os árabes do al-Andalus, ou "espanhóis", não implique para nós certos deveres no que respeita à sua memória; deveres que, em última análise, se fundamentam na vantagem que usufruímos ao cumpri-los, já que ao fazê-lo alimentamos a nossa própria substância, enriquecendo e aperfeiçoando a nossa hispanidade. (...)
    "



4 comentários:

Marco disse...

A questão é interessante. Claro que chamar a um árabe andalus "árabe espanhol", ou "árabe português" parece-me forçado. Por outro lado, também é uma manifestação de orgulho da nossa herança cultural.
Ou seja: podemos fazê-lo, mas tenhamos consciência do que estamos a dizer.

Manuel Ramos disse...

Curioso como um filósofo tão preocupado com a História comete tantas gaffes e faltas de rigor num só texto: refiro-me à confusão tão "espanhola" entre Península e Espanha, refiro-me à deliciosa ilusão de quem afirma que "(...) a Espanha há muito tempo atingiu a plenitude da sua nacionalidade (...)". (cont....)

Manuel Ramos disse...

....E o que dizer quando, contradizendo o que vinha afirmando, e não sabendo que mais lhe chamar, fala da "coisa" que a Espanha afinal é? Para se entender melhor o contexto de tais declarações, só falta uma coisa: a data.

António Baeta disse...

A data não pode ultrapassar o ano em que faleceu, 1955.